Em tempos em que nada é mastigado antes de engolir
segunda-feira, 12 de setembro de 2011
Os novos reacionários e o medo da organização (Ou por que ser diferente não basta para realmente confrontar a normalidade)
segunda-feira, 2 de maio de 2011
UMA RAZÃO A MAIS PARA SER ANTICAPITALISTA
domingo, 23 de janeiro de 2011
Uma insubordinada humilde e solidária
quinta-feira, 6 de janeiro de 2011
Subjetividade e individualismo - avessos em um mundo de aparências*
sexta-feira, 31 de dezembro de 2010
2010: um ano para guardar
Guardar uma coisa não é escondê-la ou trancá-la/ Em cofre perde-se a coisa à vista./ Guardar uma coisa é olhá-la, fitá-la, mirá-la por/ admirá-la, isto é, iluminá-la ou ser por ela iluminado./ Guardar uma coisa é vigiá-la, isto é, fazer vigília por/ ela, isto é, velar por ela, isto é, estar acordado por ela,/ isto é, estar por ela ou ser por ela./ Por isso, melhor se guarda o vôo de um pássaro/ Do que de um pássaro sem vôos./ Por isso se escreve, por isso se diz, por isso se publica,/ por isso se declara e declama um poema:/ Para guardá-lo:/ Para que ele, por sua vez, guarde o que guarda:/ Guarde o que quer que guarda um poema:/ Por isso o lance do poema:/ Por guardar-se o que se quer guardar. (Antônio Cícero em "Guardar")
Sair voando pelo mundo exige uma série de construções que nos tornam quem somos, criam e transformam nossas asas, com seus limites e suas belezas. Este ano, voei ao lado de alguns dos mais belos e sonoros pássaros de toda uma vida. Por isso, registro que 2010 é um ano para guardar, no sentido de Antônio Cícero, por seus trajetos, nem sempre retos, mas que nos fazem ser mais felizes por conhecermos seus coloridos, suas profundidades, seus malabarismos.
Não quero repetir, aqui, um dos raciocínios mais relevantes deste ano, qual seja, o de que vivemos anestesiados. Fiz isso em texto recente (http://tudofastfood.blogspot.com/2010/11/depois-do-autoritarismo-anestesia.html) e consideraria redundância retomar o tema. Contra essa anestesia, contudo, vale dizer que convivi com vários contrapontos neste ano. Conheci os lençóis do Maranhão, os verdes quentes do Piauí, as tradições de Curitiba, as meninas-mulheres de Brasília, os lutadores de São Paulo, os anéis e feiras de Fortaleza, as profundas cachoeiras dos mais belos olhos. E também os desafios crescentes da dogmática jurídica, as sujeiras da política tradicional, as possibilidades e necessidades de reação, os projetos perdidos, os projetos em (re)construção.
De fato, os ventos estavam favoráveis a vôos. Pequeno pato perdido, estabanado e torto, dei meus pulos como pude, não raro tendo dos maiores tombos de uma vida. Mas também isso guardo: a noção de que a intensidade do tombo é proporcional à altura do vôo; a vontade de prosseguir nos vôos que mal começam; as memórias de quem me ajudou a lembrar a importância dos sorrisos e brincadeiras para que nosso espaço não se torne mero mecanismo seco e frio.
Dois mil e onze nasce com muitos desafios. O desafio de lutar pelos direitos humanos, de entender melhor esta sociedade excludente, de manter o tesão e a ludicidade, de arriscar novos tombos, de não me render ao individualismo, de compartilhar esperança e mãos a todos que queiram fazer novas cirandas. E dançar, sonhar, rir, transgredir, delirar na busca por mundos mais solidários, relações mais gentis e sinceras. Que sejamos patos. Que voemos. E que nossos planos sejam práticas, mais do que teorias.
A vida, definitivamente, é nossa obra a ser criada, com todas as suas responsabilidades, belezas, borrões. Quando finalmente entendemos que podemos nos comunicar mais do que para o banal, que podemos transfigurar em palavras e gestos sentimentos abstratos, necessidades para além do óbvio, o isolamento é apenas uma opção. Dois mil e dez, pra mim, confirmou a necessidade de renegar essa opção individualista; pelo contrário, quero buscar o inatingível, o olhar do outro, dar as mãos em busca de ninhos maiores. Aconchego-me em coletividades de amigos e companheiros e, de maneira concisa, registro que essa é a maior lição do ano.
Há muito tempo que eu saí de casa/ Há muito tempo que eu caí na estrada/ Há muito tempo que eu estou na vida/ Foi assim que eu quis, e assim eu sou feliz/ Principalmente por poder voltar/ A todos os lugares onde já cheguei/ Pois lá deixei um prato de comida/ Um abraço amigo, um canto prá dormir e sonhar/ E aprendi que se depende sempre/ De tanta, muita, diferente gente/ Toda pessoa sempre é as marcas/ Das lições diárias de outras tantas pessoas/ E é tão bonito quando a gente entende/ Que a gente é tanta gente onde quer que a gente vá/ E é tão bonito quando a gente sente/ Que nunca está sozinho por mais que pense estar/ É tão bonito quando a gente pisa firme/ Nessas linhas que estão nas palmas de nossas mãos/ É tão bonito quando a gente vai à vida/ Nos caminhos onde bate, bem mais forte o coração (Gonzaguinha - Caminhos do Coração)