segunda-feira, 12 de setembro de 2011

Os novos reacionários e o medo da organização (Ou por que ser diferente não basta para realmente confrontar a normalidade)

Ignorante ou hipócrita pensar que o caos da nossa sociedade, destruidor de subjetividades, pode ser enfrentado de maneira subjetivista. É tão conservador quanto a tradição pensar-se solitariamente alternativo e especial por ter-se um conhecimento algo aprofundado em literatura, cinema, ética ou direito. Não há, nisso em si, nenhum grande rompimento com a tradição excludente em que vivemos há séculos. Pelo contrário.

É preciso entender as particularidades de nosso tempo. Em nenhuma época como hoje houve tanta falsa comunicação. Nunca, também, houve tanta novidade antiga, travestida em arrogância pós-moderna individualista rebuscada. Parece bastar escrever bonito para ter seu lugar na história do pensamento. Ou, ainda pior, parece que o agir solitário é um caminho contra-hegemônico, como se bastasse consciência para mudar o mundo. Ignora-se, por comodismo ou cegueira, que poucos são os sensatos em uma sociedade que estimula a ignorância. Espera-se que aconteçam milagres de autoconsciência espontaneístas, sem direcionamento, manifestações, gritos coletivos. Coloca-se a culpa do sistema nas organizações que reagem contra ele. Estupidez, por conseguinte, torna-se desejável a quem a reflete.

Desenganando o campo teórico, advirta-se que o aparente caos moral, artístico e jurídico de nossa época, é, em verdade, senão um planejamento, certamente uma consequência intransponível da ordem capitalista. Nossa subjetividade bagunçada, sem lazer, cultura ou afetividade, é tão intencional quanto desprotetora é nossa polícia, deseducadora é nossa universidade e injusta é nossa justiça. Nosso maior problema coletivo é de ordem material: a desigualdade não é apenas um fator estatístico, mas uma lógica estruturante da ordem em que estamos inseridos. Daí que o individualismo como forma de reação é tão esperado quanto imaturo e ignorante. Reafirmar o caos, oriundo desta ordem, apenas o legitima - como pequenas formigas caminhando individualmente, algumas pela grama, outras pela areia, rumo ao mesmo formigueiro, sem dimensão do tamanho de sua expropriação e exploração por falta de visão da totalidade tida como "natural".

Há que desviar deste caminho, mas não sozinhos nem de qualquer jeito. O momento da consciência em que nos afastamos das aparentes belezas que nos jogam como naturais é assustador. Grandes as estruturas, a ordem sangrenta e as coações que intentam nos obrigar a ceder, seja por pragmatismo, seja por propagandas e relativismos. Mas, assim como é mais difícil correr de mãos dadas do que individualmente, também mais difícil é ser arrastado quando não estamos sozinhos. O estado de consciência seguinte ao do susto é um salto de responsabilidade. Parte-se do entender ao reagir e comunicar a todos que caminham cegos, automaticamente, que há alternativa a este medo e esmagamento constante. Mas não há como construir coragem no interior do medo: apenas podemos construir coragem de destruir o medo e, destruído esteja, construir outra ordem, libertária e socialista.

Não se trata, apenas, de semear insubordinação, mas de entender a função e o limite da rebeldia. Quer-se uma ordem libertária contra esta ordem caótica, e não pequenos feudos belos, fechados a quatro paredes, contra a violência externa. Por isso, qualquer estrutura hierárquica deve ser questionada, mas é sem dúvida ingênuo e irresponsável o pensamento de que não devemos organizar nossas ações coletivamente para reagir à coletividade hegemônica posta. Daí decorre a necessidade de agrupamentos, coletivos e partidos políticos: das nossas barricadas serem maiores em conjunto; dos nossos cantos precisarem ser não apenas afinados, mas altos.

Nesse sentido é que devemos enfrentar os mitos desorganizativos contemporâneos, com audácia para reinventar nossa ação sem incidir em relativismos ocos e egocêntricos. Disso concluem-se uma série de desafios de nossa época: reencantar, reorganizar, comunicar verdadeiramente, lutar nas ideias e nas ruas, sensibilizar corações e mentes. Trata-se de conseguir retirar mais formigas da automática recompensa que nosso modelo de trabalho, ao destruir a natureza, gera como lucro em formigueiro: trata-se de mostrar os buracos, assassinatos e erros deste formigueiro e, irmanado em força coletiva, oportunizar coragem para que nossos/as camaradas não voltem, com medo, às filas individualistas.

Coletivizar: um verbo não apenas urgente, mas indispensável.

segunda-feira, 2 de maio de 2011

UMA RAZÃO A MAIS PARA SER ANTICAPITALISTA

Do livro "Meta Amor Fases" (Mauro Iasi).


UMA RAZÃO A MAIS PARA SER ANTICAPITALISTA

Te amo
e odeio tudo que te deixa triste.

Se o mundo com seus horários e famílias
e fábricas e latifúndios e missas
e classes sociais, dores e mais-valia
e meninas com hematomas
no lugar de sua alegria

insistir em te deixar triste,
apertando tua alma
com suas garras geladas,
teremos, então, que mudar o mundo.

Nenhum sistema que não é capaz
de abraçar com carinho a mulher que amo
e acolher generosamente minha amada classe
é digno de existir.

Está, então, decidido:
Vamos mudar o mundo,
transformá-lo de pedra em espelho
para que cada um, enfim, se reconheça.

Para que o trabalho não seja um meio de vida
para que a morte não seja o que mais a vida abriga
Para que o amor não seja uma exceção,
façamos agora uma grande e apaixonada revolução.

domingo, 23 de janeiro de 2011

Uma insubordinada humilde e solidária

O medíocre não se importa em entender por que quer logo subir na vida, por que precisa de conforto rápido e qualquer dificuldade que se lhe atravesse é uma tragédia. É um ser mediano, de reflexos imediatos, sem senso crítico. Engole o que lhe for empurrado com maior persuasão: as felicidades instantâneas, o conforto cínico, os laços superficiais; não mastiga: engole: a mídia, a tradição, a riqueza, a beleza, o simplismo. Mas, quando se engasga, logo diz não ser culpa sua. O medíocre nunca tem culpa.

Um medíocre, ao ser descrito, pensa não haver nada mais interessante que não sua própria mediocridade. Sente-se incomodado, resmunga e dá pontapés. É arredio, convicto de sua própria mediocridade. Identifica-se com outros medíocres. E são medíocres pra sempre, vivendo do mundo como se o mundo não vivesse (ou deixasse de viver) de sua mediocridade.

Somos todos medíocres, salvo quando vivemos em autovigilância e possuímos quem sinceramente queira nosso bem.

Por isso, a importância da família, biológica ou escolhida. Mas não basta apenas ser família: é necessário ser uma família com autocritica, que constitua sua subjetividade para além do individualismo e da arrogância. Por isso, testemunho aqui a felicidade dos rastros de uma mestre. De sonhos, de tesão, de autocrítica; minha irmãzinha escolhida, tão genial quanto a biológica. Uma insubordinada humilde e solidária.

Falo de Iuscia. Ela, que conheci quase (e apenas quase) por acaso, mudou meu mundo. E como seriam nossos mundos, não fossem essas pessoas tão encorajadoras? Ela fez da Faculdade de Direito outro lugar. Transformou o que seria tédio em coragem: de esperança em outros mundos, outro tipo de relação entre as pessoas, mais solidária, mais compreensiva, mais gentil.

Ela que me falou dos conceitos de culpa, confissão, punição. Lembro como se fosse ontem da forma como ela dizia ter se encantado com alguém entre vários alguéns: "Perguntei pras pessoas o que elas fariam se, ao chegar em casa, seu colega de quarto, num momento de raiva e desespero, quebrasse a TV; alguns disseram que xingariam; outros, que exigiriam uma TV nova; e uma pessoa disse que conversaria com o colega, tentando entender o que tinha feito ela quebrar a TV. A diferença de humanidade, de compreensão de relações, foi imediato".

Me reconheci nessa história. E na Iuscia, todatoda carnavalizada, todatoda insurgente, todatoda desperta e ao mesmo tempo sonhadora. Sua autocrítica constante, e a forma de construir o caminho ao caminhar, com aquela rebeldia e insubordinação explosivas, foram das características que mais me encantaram na minha vida acadêmica, até hoje. Sem dúvida também na minha vida, como um todo, ocupam lugar protagonista.

Aprendi com ela a contestar e a ser solidário; a gritar e a ser gentil; a não perder o caráter e a ser diplomático; a beber e a aproveitar a vida; a ser feliz com desconhecidos, a ser feliz com conhecidos, a ser feliz com a família que escolhi. Esta, hoje se reuniu pra agradecer à Iuscia por tudo que ela fez e faz por nós, tanto em fatos quanto de dentro da gente.

Choramos, rimos, dançamos a noite toda. A identificação mútua, o carinho, as construções e mudanças que já (des)construímos juntos, sem dúvida, nos encorajam a não ser medíocres nunca mais. "É preciso estar atento e forte/
não temos tempo de temer a morte".

Eu te amo e te levo comigo, como mestre, como irmã, como minha eterna muchacha inquieta e magicamente maravilhosa.

quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

Subjetividade e individualismo - avessos em um mundo de aparências*

O mundo nos condiciona a estarmos parados. A informação é veloz, as crianças morrem na África e a África é logo ali na esquina. Vemos a exclusão e não sabemos como agir. Tentamos, falhamos, não notamos nada acontecer e, de repente, parece mais fácil ignorar, acomodar-se, desistir. Na velocidade com que tudo corre, a dita liquidez pós-moderna toma conta também da nossa identidade, que parece falha, comum, mais uma inutilidade em um mundo desigual e inatingível. Mas o mundo somos nós.

Escrevo àqueles que já saíram às ruas. Esse pressuposto é indispensável para que saibamos que falamos de pessoas, com complexos olhares baixos, caídos, desencantados com a vida. A indignação e a rebeldia frente a esse panorama nos induzem a sair do eixo-comum que a mídia tenta nos fazer engolir, segundo o qual sonhar e acreditar basta para ascender na vida. Cientes da hipocrisia desse preceito, é necessário reagir, mesmo que não se saiba exatamente como, mesmo que sejamos incompletos, mesmo que nossos passos sejam falhos e pequenos.

No começo do caminho, o primeiro questionamento, necessário, pergunta da nossa capacidade de reação. Se fazemos parte da sociedade, e fazemos, é certo afirmar que nossa identidade foi constituída por uma série de preconceitos, competitividades, materialismos, anestesias. Constituir identidade própria é pressuposto de ser autônomo, independente, capaz de enxergar mais do que sombras do mundo, para utilizar uma alegoria de Platão.

Entretanto, há uma confusão muito grande, e desastrosa, nesse caminho. Porque constituir subjetividade não pode, senão em contradição latente, transformar-se em constituição de individualismo. Quando isso ocorre, a necessidade de reagir ao mundo veloz torna-se mera adaptação à velocidade do mundo. O sujeito, ao invés de entender o mundo para superá-lo, entende o mundo para fazer parte do que está-aí. E se vangloria, feliz, dos momentos incomuns, inteligentes, belos e sensíveis que vivencia, ao correr e apreender mais rápido do que os demais. Exatamente: deixa que os demais não corram, pois isso não lhe diz respeito.

A crítica que se faz aos autores pós-modernos, acertada embora generalizante, é de que não buscam intervir na sociedade. Seus diagnósticos são exatos: eles entendem a pobreza de pensamento, a distorção da individualidade, a exclusão e a anestesia inerente à estrutura que se auto-reproduz, mas não combatem esses problemas. Ou seja: uma masturbação intelectual mesquinha, egocêntrica e arrogante, de quem observa os espaços apenas para diminuir sua inquietude para com o mundo.

É necessário nunca perder a urgência de mundo. Avançar, sim, na subjetividade, na constituição de sujeitos autônomos, sem contudo deixar de lutar para oportunizar isso a ainda outras pessoas, dentre as quais devemos sempre nos incluir. Somos, nas precisas palavras de Lenine, precários, provisórios, perecíveis, falíveis, transitórios, transitivos, efêmeros, fugazes e passageiros; somos, enfim, vivos. E, com a consciência da nossa falibilidade, cabe somente a nós lutar para que mais pessoas possam sê-lo por suas próprias escolhas, ao invés de condicionamentos.

* texto inspirado em conversas com @helenamena

sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

2010: um ano para guardar

Guardar uma coisa não é escondê-la ou trancá-la/ Em cofre perde-se a coisa à vista./ Guardar uma coisa é olhá-la, fitá-la, mirá-la por/ admirá-la, isto é, iluminá-la ou ser por ela iluminado./ Guardar uma coisa é vigiá-la, isto é, fazer vigília por/ ela, isto é, velar por ela, isto é, estar acordado por ela,/ isto é, estar por ela ou ser por ela./ Por isso, melhor se guarda o vôo de um pássaro/ Do que de um pássaro sem vôos./ Por isso se escreve, por isso se diz, por isso se publica,/ por isso se declara e declama um poema:/ Para guardá-lo:/ Para que ele, por sua vez, guarde o que guarda:/ Guarde o que quer que guarda um poema:/ Por isso o lance do poema:/ Por guardar-se o que se quer guardar. (Antônio Cícero em "Guardar")


Sair voando pelo mundo exige uma série de construções que nos tornam quem somos, criam e transformam nossas asas, com seus limites e suas belezas. Este ano, voei ao lado de alguns dos mais belos e sonoros pássaros de toda uma vida. Por isso, registro que 2010 é um ano para guardar, no sentido de Antônio Cícero, por seus trajetos, nem sempre retos, mas que nos fazem ser mais felizes por conhecermos seus coloridos, suas profundidades, seus malabarismos.

Não quero repetir, aqui, um dos raciocínios mais relevantes deste ano, qual seja, o de que vivemos anestesiados. Fiz isso em texto recente (http://tudofastfood.blogspot.com/2010/11/depois-do-autoritarismo-anestesia.html) e consideraria redundância retomar o tema. Contra essa anestesia, contudo, vale dizer que convivi com vários contrapontos neste ano. Conheci os lençóis do Maranhão, os verdes quentes do Piauí, as tradições de Curitiba, as meninas-mulheres de Brasília, os lutadores de São Paulo, os anéis e feiras de Fortaleza, as profundas cachoeiras dos mais belos olhos. E também os desafios crescentes da dogmática jurídica, as sujeiras da política tradicional, as possibilidades e necessidades de reação, os projetos perdidos, os projetos em (re)construção.

De fato, os ventos estavam favoráveis a vôos. Pequeno pato perdido, estabanado e torto, dei meus pulos como pude, não raro tendo dos maiores tombos de uma vida. Mas também isso guardo: a noção de que a intensidade do tombo é proporcional à altura do vôo; a vontade de prosseguir nos vôos que mal começam; as memórias de quem me ajudou a lembrar a importância dos sorrisos e brincadeiras para que nosso espaço não se torne mero mecanismo seco e frio.

Dois mil e onze nasce com muitos desafios. O desafio de lutar pelos direitos humanos, de entender melhor esta sociedade excludente, de manter o tesão e a ludicidade, de arriscar novos tombos, de não me render ao individualismo, de compartilhar esperança e mãos a todos que queiram fazer novas cirandas. E dançar, sonhar, rir, transgredir, delirar na busca por mundos mais solidários, relações mais gentis e sinceras. Que sejamos patos. Que voemos. E que nossos planos sejam práticas, mais do que teorias.

A vida, definitivamente, é nossa obra a ser criada, com todas as suas responsabilidades, belezas, borrões. Quando finalmente entendemos que podemos nos comunicar mais do que para o banal, que podemos transfigurar em palavras e gestos sentimentos abstratos, necessidades para além do óbvio, o isolamento é apenas uma opção. Dois mil e dez, pra mim, confirmou a necessidade de renegar essa opção individualista; pelo contrário, quero buscar o inatingível, o olhar do outro, dar as mãos em busca de ninhos maiores. Aconchego-me em coletividades de amigos e companheiros e, de maneira concisa, registro que essa é a maior lição do ano.


Há muito tempo que eu saí de casa/ Há muito tempo que eu caí na estrada/ Há muito tempo que eu estou na vida/ Foi assim que eu quis, e assim eu sou feliz/ Principalmente por poder voltar/ A todos os lugares onde já cheguei/ Pois lá deixei um prato de comida/ Um abraço amigo, um canto prá dormir e sonhar/ E aprendi que se depende sempre/ De tanta, muita, diferente gente/ Toda pessoa sempre é as marcas/ Das lições diárias de outras tantas pessoas/ E é tão bonito quando a gente entende/ Que a gente é tanta gente onde quer que a gente vá/ E é tão bonito quando a gente sente/ Que nunca está sozinho por mais que pense estar/ É tão bonito quando a gente pisa firme/ Nessas linhas que estão nas palmas de nossas mãos/ É tão bonito quando a gente vai à vida/ Nos caminhos onde bate, bem mais forte o coração (Gonzaguinha - Caminhos do Coração)

quinta-feira, 4 de novembro de 2010

Depois do autoritarismo, a anestesia

Seria engraçada, não fosse trágica, a posição de várias pessoas inteligentes e conscientes a respeito de seu método de ação na sociedade contemporânea. Parecem naturalizadas duas posturas lamentáveis: a primeira, radicalmente niilista, de que não há o que fazer para que se construa uma sociedade mais justa; a segunda, de um niilismo mais ameno, que só acredita em propostas individuais na construção de projetos coletivos, normalmente por "medo da política". Assim, rastejamos todos em uma democracia apenas daqueles que se envolvem nos espaços. Sendo estes, normalmente, tão niilistas quanto os que não se envolvem.

Se a ditadura civil-militar não permitia o exercício da cidadania em diversas frentes, e se a história da América Latina sempre oportunizou poderes poucos e para poucos, nossas ditas conquistas democráticas ainda estão distantes do que verdadeiramente almeja o termo (que, aliás, seria a fonte de sua legitimidade). Diz Galeano, não com exagero, que votamos para escolher o molho com que seremos devorados. Seja na macropolítica, em termos de eleições estatais, seja na micropolítica, em eleições, por exemplo, para sindicatos de estudantes, nos acostumamos ao possível e ao pragmático. E achamos que o autoritarismo é de décadas passadas.

Poucos são aqueles que tomam a democracia como um compromisso. Não intelectual, mas prático-reflexivo; de ação, de construção, de dia-a-dia nas ruas. É realmente muito fácil apontar o dedo e reclamar. De fato, é inclusive necessário. Contudo separar teoria e prática, em termos democráticos, é como escrever cartas ao rei, solicitando qualquer coisa que não ajudaremos a realizar. Ou, em outra frente, ajudar a realizar, sem saber o quê, exatamente. Como crianças chorando aos pais não poder comer a sobremesa e comendo o almoço, azedo, que lhes foi imposto. É preciso ressignificar as relações democráticas. Intervir nelas intelectual e empiricamente. É preciso tensionar por todos os lados possíveis e refletir sobre as tensões. É preciso construir alternativas, fazer parte do que esperamos do mundo.

Veja-se que as entidades representativas são construídas historicamente. Negam modelos anteriores; avançam rumo a novos modelos. Mas estão sempre no meio do caminho: entre um já-foi e um não-é. Elas possuem imperfeições, defeitos, qualidades. São feitas na marca de interesses obscuros e esperanças profundas depositadas em ações que as trouxeram ao que está-aí. São, essencialmente, contraditórias, disputadas e, ao mesmo tempo, espaços de possibilidade de organização, por pautas coletivas, na busca pelo que seja mais justo, mais adequado, mais correto.

Não há perfeição em nenhuma entidade, partido ou grupo político. São eles, como somos todos, essencialmente incompletos, tal seja nossa natureza humana. Além de incompletos, são e somos perecíveis, falíveis, errantes, tendentes ao egoísmo, à acomodação, ao simplismo. E, também como nós, são e somos passíveis de encanto, de magia, de diálogo, de amor, de gentileza, de valorização do outro. Uma entidade, feita por pessoas, necessariamente precisa refletir o que de melhor possuem essas pessoas. O que não significa que conseguirá refletir completamente nem que só possuirá boas características. O mito da perfeição nos induz a ver os defeitos com maior grau do que as qualidades. Fazê-lo para criticar é importante. Apenas criticar é insuficiente.

É necessário que se tenha noção de que não construir os espaços é tão conservador quanto construí-los mal. Permite, porque não intervém, que tudo permaneça como está. Aceita, porque não contesta, que tudo prossiga na mesma lógica, muitas vezes ilógica, de jogos mesquinhos de poder. Isola-se, como uma samambaia, em um cômodo e confortável sol de expectador daquilo que os protagonistas constroem. Como se não houvesse possibilidade de construir novos protagonismos. Confundindo, exatamente, a falta de possibilidade com a falta de vontade de buscar o que seja o ideal.

Brecht critica, em texto forte e em certa medida excessivo em relação ao que aqui se comenta, que odeia os indiferentes. Aduz que são os indiferentes, e não os protagonistas ruins, quem são responsáveis pelos problemas que não são resolvidos. A grande massa de indiferentes produzidos pela mídia, pelo cômodo, pelo impossível, pelo individualismo, pela falta de coragem, é definitivamente uma massa anestesiada, por outros e por si própria, ao não se rebelar, reagir, resistir, deixando-se ser apenas mais um. Os indiferentes, ainda que não mereçam nosso ódio, merecem nosso lamento e nosso pedido de diferença. Sejamos a diferença, juntos.

Talvez não seja possível provocar, com um texto, o coração e a alma daqueles que deveriam estar conosco. Deveriam porque, neste mundo de informação desinformadora, têm consciência do que está errado; porque, na passividade geral, querem ser sujeitos de algo melhor; porque, dentre todos os defeitos que nos acomete, ainda assim queremos construir conjuntamente, com o melhor de cada um de nós, algo que transmita mudanças reais, a partir do que o humano melhor consegue coletivizar.

Contudo o convite é diário e a construção não termina em uma ou outra entidade, muito menos em eleições, instrumento tão falho de averiguação do que seja representativo e democrático. Sigamos desassossegados e inquietos. Mas, mais do que isso, multipliquemos e sejamos protagonistas dessa inquietude em todos os lugares onde possa estar a nossa voz, em todos os lugares onde transfiguram o que seja nosso por autoritarismos velados. O autoritarismo, muitas vezes, parte de nós mesmos. Resta reconhecer e reagir.

Cegueiras em tempo eleitoral – A conservadoríssima discussão sobre direitos individuais

Publicado originalmente em 13/10 no sítio Amigosdepelotas (http://www.amigosdepelotas.com/2010/10/cegueiras-em-tempo-eleitoral.html)

É inacreditável o debate suscitado entre os candidatos José Serra e Dilma Rousseff acerca do trato que eles darão aos direitos humanos. Revela, para além do baixíssimo nível do debate eleitoral brasileiro, o conservadorismo cultural e político em que vivemos. Um candidato que não respeita sequer direitos individuais, por motivos religiosos, como se disse por tweets e afins, deveria concorrer a Papa, e não a Presidente da República.

Temos visto, em todos os horários eleitorais, ambos os candidatos dizerem-se defensores da vida, “graças a Deus”, com “fé” no futuro. Interessados em votos cristãos de maneira geral, contrapõem-se à “assassina” prática abortiva ou ao pecado revelado pelo casamento gay, não-procriativo. Tenha-se claro: esse posicionamento é superficial e eleitoreiro.

José Serra, especialmente, para o desgosto dos liberais com algum subsídio teórico que o apóiam, tem colocado o marketing à frente da ideologia, criticando uma posição não mais do que liberal de Dilma Rousseff, que visa a tratar a prática do aborto como problema de saúde pública, e não de conduta contra a qual deva ser imposta pena de prisão.

Diga-se que o aborto, mais do que qualquer outra coisa, é de fato um problema de saúde pública com corte de classe social; incontestáveis os dados, segundo os quais aborto autoprovocado, desassistido ou clandestino é a terceira maior causa de mortes entre mulheres pobres na faixa de 16 e 18 anos. Pobres, obviamente, porque as ricas podem ir a uma clínica particular e realizar, também com todos os traumas psicológicos, mas sem sanções penais ou riscos à sua saúde física, seu aborto.

Outro inacreditável debate é o que chama casamento civil de sacramento religioso, portanto impossível a homoafetivos. O civil da expressão não está ali por acaso: ali está porque diz respeito à cidadania e ao Estado, e não à religiosidade ou à Igreja. No direito contemporâneo, a principal característica do casamento civil deixou de ser a procriação, do Estado cristão, passando a ser o afeto. Obviamente não há como impedir o casamento entre pares homoafetivos, que inegavelmente constituem vida juntos, com fins afetivos.

Reconhecê-lo oficialmente, entretanto, também pode significar perda de votos. Então José Serra parece sequer cogitar a ideia, enquanto Dilma Rousseff, também eleitoralmente, defende a união estável entre os casais, sem contudo defender o casamento, em uma espécie de meio-termo que, na verdade, nega direitos. Inúmeros os países que, tão-logo aprovaram o casamento civil gay, observaram vários casais de velhinhos e velhinhas, há décadas juntos, correndo para registrar publicamente seu afeto. Dilma e Serra, todavia, preferem manter velhinhos e velhinhas em casa, longe dos olhos dos “cidadãos de bem”, únicos que o Estado (deles) deve proteger.

Deve-se questionar as origens destes posicionamentos, alheias ao que materialmente lhes concerne. Que alguém tenha seus problemas morais privados para com aborto e relações homoafetivas é perfeitamente aceitável. A moral privada a cada um diz respeito. O Estado, contudo, é laico, sendo-lhe portanto vedado nortear ações públicas por critérios particulares, como o são os religiosos. O que assusta em todo esse debate, de fato, é ter noção de que a laicidade do Estado é uma reivindicação em nada revolucionária: é uma exigência da chamada primeira geração de direitos humanos, protetora dos direitos individuais, que de corrida também protege direitos como da propriedade, com as atuais ressalvas da função social.

Ora, discordâncias para com direitos individuais estão intrinsecamente ligadas a fundamentalismo religioso e a autoritarismos sanguinários. Teóricos liberais sérios não concordam com esse tipo de postura. A pluralidade cultural e ideológica é o mínimo que se espera de uma sociedade que se diz democrática – cuja democracia, muitas vezes ilusória, debate temas mesquinhos, falando muito sobre nada e muito pouco sobre o que realmente importa.

Sobre o que realmente importa, anote-se que há quem classifique a atual luta dos direitos humanos em duas frentes: os de proteção de minorias discriminadas frente a desmandos intolerantes e preconceituosos da maioria, trabalhados ao longo do texto, e os de proteção de maiorias marginalizadas pela pobreza e desigualdade social. Se, quanto aos primeiros, com um tom mais ou menos progressista, o discurso dos candidatos é por votos, o que dizer do populismo adotado em relação à segunda frente?

Aos que se propõem verdadeiramente a buscar soluções para as demandas da sociedade, ficam duas sugestões: primeiro, de observância do que os candidatos não dizem: seus financiadores de campanha, suas alianças políticas, suas prioridades orçamentárias; após, de escolha do menos pior, sem desatentar para o fato de que urge se avançar muito mais do que sugerem nossas atuais opções.